OMA / 2015

CENA I – Onde tudo começa

(- Oma, recordas algo da infância na Alemanha ou da viagem de navio para cá?) Wanda, neste momento, tem mais de 90 anos.

Inverno de 192... cidade portuária de... na Alemanha pós 1ª. Guerra. A memória da Oma resguardou uma viva impressão, a única daquele período. Elisa, a mais velha, Wanda, a menor, estão acompanhadas da mãe Marta e partirão em breve para o Brasil ao encontro do pai Franz, que tinha viajado um ano antes, numa prática comum a milhares de emigrantes que buscavam fugir da Europa convulsionada, arrasada pelas mortes e destruição. Debruçadas, com as mãos apoiadas no parapeito da janela do hotel naquela fria manhã, observam um grupo de crianças malvestidas  e esfomeadas lá embaixo. Então, a porta dos fundos, próxima à cozinha, se abre e a ânsia de pegar o alimento transforma seus rostos. As crianças disputam as cascas de batata! Neste momento, as irmãs são inseridas numa realidade atroz que até o momento desconheciam. 

Capão da Canoa, RS, noite de Ano Novo de 2015-2016. Os preparativos para a ceia vão sendo finalizados, os aromas tomam conta da sala iluminada e decorada. A Oma, com a idade de 95 anos,  seguirá sua rotina de olhar o telejornal no horário de sempre. As primeiras notícias mostram desabrigados de enchentes e crianças em sofrimento. Ela se levanta, séria, resoluta,  e diz: “Hoje não vou mais assistir. É muito triste ver tudo isto quando entre nós, aqui, e ao nosso redor, há tanta fartura...”.

Texto: Miriam Kelm

Fotografias e vídeo: Lívia Auler

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